segunda-feira, 4 de janeiro de 2021

Expurgo

    Puta ano maldito. Somente no dia 03 de janeiro de 2021 é que eu consigo parar pra colocar no papel (com sangue) o que foi esse 2020. Foi um perído no qual eu parei de entender o que era ansiedade pra sentir na pele, foi um breve espaço de tempo no qual eu percebi o quanto nós somos diferentes dos nossos amigos, colegas, família e tantos outros seres humanos que estão à nossa volta. Foi quando eu tive que sair da minha aura de loucura e aprender a ver o lado do outro. Óbvio que isso é o mesmo que chafurdar no chorume, pois é preciso usar empatia com pessoas que não parecem ter o mínimo da mesma. Um ano que pedia reclusão, mas que foi abarrotado por gente que "precisa sair ou vai enlouquecer". E eu que fiquei em casa e realmente enlouqueci? 

    Depois de meses é que eu consegui perdoar o meu círculo de contatos de todos os tipos, porém, sempre com aquele pé atrás, aquela sensação de que não posso confiar integralmente neles. Me diz você: conseguiria confiar em quem não tem o mínimo de respeito por si próprio e pelo próximo? O que deveria ser um período de uns 2 meses de reflexão e segurança se tornou, por culpa de um governo   desqualificado e de uma população filha da puta em um ano patrocinado pelo próprio Diabo.

    Foi nesse período que eu precisei aprender a conviver comigo mesmo, precisei me livrar de mais demônios do que todas as outras vezes nas quais tive minhas crises até hoje. Ansiedade. O aperto no peito, a culpa por coisas que na verdade nem são pra sentir culpa, sensação de morte que não passa e te faz paralisar diante de tudo o que você tem pra fazer. O medo de não conseguir suportar o próprio julgamento e, pela primeira vez na vida, saber como alguém que chega no extremo pra essa dor passar se sente. Ainda não passou. Ainda sinto os efeitos. Ainda tenho raiva dos meus amigos. Ainda não quero olhar na cara de quem mora comigo. Ainda sou culpado. Não pelos meus erros, mas por tê-los transformado em monstros gigantescos e por ser carrasco de mim mesmo. Ainda.


terça-feira, 8 de janeiro de 2019

Hill's house

Hoje eu descobri algo sobre mim. Na verdade, a palavra descobri soa muito falsa quando penso em todos os anos de minha vida nos quais passei sentado ouvindo os melhores professores que eu podia encontrar.
Posso começar de novo. Hoje eu redescobri algo que me faltava há muito tempo. A vontade de entender narrativas. A vontade de interpretá-las. A vontade de aprender os padrões até que tudo o que eu veja e leia sejam familiares, e eu consiga descobrir e redescobrir algo novo buscando cada vez mais fundo.
Às vezes penso como passei 21 ou 22 anos de minha vida sendo tragado pela falta de vontade. Eu não vivi 22 anos. Eu sobrevivi. Clóvis também tem uma história sobre isso. Felizmente, a dele começa aos 11 ou 13 anos, não estou certo. Bom, a minha demorou um pouco mais, mas fico feliz por ela ao menos ter começado.
As narrativas são a ciência que mais me encanta. Compreendo que todas as coisas que mais me deixam feliz são aquelas com uma história bem contada. Seja por magia, seja por mistério, seja pela eroticidade ou até mesmo pela maneira rebuscada de se criar um universo.
Um grande mágico é aquele que sabe contar uma história, que sabe envolver durante seu truque. Um bom livro sempre nos prende, tanto pela qualidade e estilo de escrita do autor, quanto pela originalidade da história que será contada. Música sem uma ótima narrativa de harmonia, melodia, letra e álbum também é música, mas sentimos falta do tempero que é a amarração entre todos esses itens.
Hoje eu lembrei que tudo o que estudei não foi em vão, e que mais do que nunca consigo aplicar todo o meu conhecimento em todo o tipo de narrativa com o qual me deparo, sendo escrita ou visual. É bom ainda sentir a inspiração aparecendo nas madrugadas, quando o coração aperta e o braço parece pedir pelo teclado. Apenas não posso esquecer jamais do escritor do jogo do anjo, pois ele me mostrou que a inspiração não é nada quando nossos dedos não sangram.
Hoje eu voltei a viver.